Beto Pandiani - Segunda-Feira, 21h07
Tags:
A noite estava estrelada, muitas estrelas no céu exatamente como nas noites sem lua quando velejávamos por este imenso Pacifico. Na caçamba da caminhonete vínhamos pulando, chacoalhando como um filhote de canguru na barriga da mãe. Cangurus não saem da minha cabeça, Austrália, como quero chegar na maior ilha do planeta! Vamos chegar!
Maristela, Pepe e eu estamos voltando do Yasur, o segundo maior vulcão do mundo em atividade. Estamos em Tanna, uma das ilhas do arquipélago de Vanuatu, o país que tem o estigma de ser o lugar de gente mais feliz do mundo. Eu vinha escutando música e me questionando sobre a felicidade, sobre toda a trajetória da viagem, sobre as pessoas que amo e lembrando-me de um telefonema que recebi alguns dias atrás da equipe de São Paulo. Eu vinha sorrindo por dentro.
O lugar é muito simples, as pessoas vivem em um mundo à parte, em uma vida onde a única preocupação é a alimentação. Será que posso chamá-los de pobres? Acho que não. Miséria, nunca vi, rusticidade, sim. Podemos chamá-los de primitivos, talvez. Mas de onde vem tanta alegria, tanta felicidade?
Viemos a Tanna porque todos insistiram conosco para visitarmos o vulcão Yasur, e foi tão impressionante que fizemos o duro trajeto dois dias seguidos. São duas horas pulando de 4X4 por uma estrada de terra horrível que corta a ilha, subindo uma serra para descer do outro lado onde fica o vale do vulcão. No caminho, íamos passando por pequenos vilarejos com casinhas de palha. Há muita gente vivendo por todo o interior da ilha. Aqui vivem 25.000 pessoas, e o que nos impressionou desde que chegamos a Tanna é que todos fazem questão de acenar, dar um sorriso. Já viajei muito e nunca vi gente tão doce, tão amável, sorridente e tão feliz. Desde um velho até uma criança, todos têm a mesma atitude. Acho que está impregnado na genética. Nós que vivemos nos grandes centros urbanizados e "civilizados" nos perguntamos: Onde mora a felicidade? O que precisamos para sermos felizes?
Ora, ora, dentro da nossa prepotência em chamá-los de primitivos damos morada para a ignorância, pois somos um bando de insatisfeitos, que busca no consumo desenfreado e nos valores materialistas a felicidade. Os anos vão passar e talvez um dia vejamos o quanto caminhamos para o lado errado. O máximo que conseguimos fazer é olhar para nosso próprio umbigo.
Na primeira visita ao vulcão, eu vinha ansioso, pois pelas fotos e relatos íamos conseguir ficar a poucos metros da cratera e ver o vulcão em plena atividade. Há alguns anos subi o vulcão Vila Rica, no Chile, e no topo debrucei-me na borda da cratera. Ali vi aquele caldeirão incandescente em atividade, foi inesquecível, mas, aqui, foi incomparável. Quando, da estrada, avistamos o vulcão bem ao longe no outro lado do vale, pudemos ver uma imensa coluna de fumaça subindo, e de tempos em tempos seguia-se outra explosão com mais fumaça. Passada uma hora a nossa caminhonete estava chegando na base do vulcão e havia mais outros quatro carros com mais visitantes. Assim que descemos do carro, já no final da tarde, os guias nos deram lanternas e jaquetas. Fazia muito frio e ventava estranho para uma latitude como a nossa.
Subimos pela encosta e, ao chegar ao topo, fomos surpreendidos por uma grande explosão. Vimos subir bem à nossa frente pedras imensas de lava que eram cuspidas para o alto e jogadas longe. A maioria caía novamente na encosta da cratera, algumas outras iam um pouco mais longe, mas no lado contrário ao que estávamos. À medida que escurecia o espetáculo ficava mais grandioso, como fogos de artifício em uma noite de ano novo. As explosões faziam o chão tremer, o som era alto e muito violento, e ainda recebíamos uma lufada de ar nos nossos rostos. Difícil descrever o que vimos, mas recomendo a todos ver no Flicker as maravilhosas fotos que a Maris fez. O Pepe também captou em vídeo imagens que certamente vão impressionar a todos. Ficamos lá no topo por uma hora, assistindo a um espetáculo de pedras laranjas incandescentes voarem a uma velocidade de 300 quilômetros por hora por cima das nossas cabeças. Ficamos tão impressionados que decidimos voltar no dia seguinte, encarando mais quatro horas de chacoalhadas na pequena e sinuosa estrada que corta a ilha de Tanna.
No segundo dia o Yasur estava muito nervoso e as explosões ainda mais violentas e barulhentas. Em uma delas, uma pedra foi lançada exatamente no caminho que havíamos feito 15 minutos antes para subir a encosta do vulcão. Foi o suficiente... Batemos em retirada bem assustados. Não dá para dar chance ao azar, e afinal já havíamos visto o bastante. Algo inesquecível, muito forte. Aquele tipo de situação que te faz perguntar depois de algumas horas: será que foi verdade?
Esses dias em Tanna foram ótimos para dar uma relaxada em relação ao barco. Como vocês viram, passamos por várias situações-limites onde quase perdemos o nosso querido Bye Bye Brasil. Conseguimos chegar, mas perdemos a confiança no barco. E o que fazer agora? Foi o que nos perguntamos. Ficamos nos últimos dias tentando encontrar uma solução para o final da viagem. A primeira idéia foi terminá-la na Nova Caledônia e evitar uma longa travessia para a Austrália. Principalmente porque nesta época o vento predominante é o sudeste, e como este ano as frentes frias estão muito fortes, fica difícil encontrar um período de seis dias com mar calmo. O Bye Bye Brasil não iria resistir.
Acabar na Nova Caledônia seria fazer mais que 90% da travessia, mas deixaria para sempre um gosto amargo na boca, e a viagem ficaria marcada para nós como algo incompleto. Mas, como ir contra o bom senso, contra tudo aquilo que sempre regeu nossas decisões? Foi então que veio a idéia de rumar para o Norte, procurando ventos mais favoráveis e, depois, velejando para Oeste, poderíamos chegar em Solomon Islands, um grupo de ilhas colado em Papua Nova Guiné, já quase no norte da Austrália. Desta forma teríamos cruzado o Pacifico todo, e em termos de longitude teríamos cumprido nosso objetivo. Começamos a procurar informações sobre Solomon Islands e as notícias não eram muito animadoras... Fala-se que não é um lugar muito seguro, que tem muita burocracia e poucas opções para parar.
O Igor insistia em dizer que ele tinha um sentimento estranho em relação ao barco, que algo poderia acontecer em uma travessia longa, mas que para subir para Solomon ele se sentia mais confortável. Eu fiquei dividido, pois não queria terminar a viagem assim, mas confio na minha intuição e também confio no Igor. Aliás, nos damos tão bem que nunca tivemos atrito em nenhuma decisão. Temos um jeito semelhante de encarar os momentos difíceis, somos ambos sempre bem conservadores. Acabamos tomando a decisão de consertar o barco, trocar os parafusos e seguir viagem para o Norte.
Conseguimos finalmente na última quinta-feira, dia 31 de julho, tirar o barco da água. Todo este atraso porque o único lugar de Port Vila que podia fazer isso estava com o trator quebrado. Imediatamente depois de puxar o catamaran da água começamos a desmontá-lo. Três horas depois o Igor conseguiu retirar o parafuso quebrado de dentro do casco e, se tudo corresse bem com os reparos, em três dias o Bye Bye Brasil poderia voltar ao mar.
Voltamos ao hotel cansados e despencamos na cama, pois o outro dia ia começar cedo. Meu sentimento em relação à decisão que tomamos me trazia uma angústia muito grande, mas eu não podia ir contra meus princípios. Se eu tivesse tomado atitudes impensadas no passado, certamente não teria terminado nenhuma das cinco viagens anteriores. No fundo, o que fazemos é administrar riscos, e ir para a Austrália agora seria tomar um risco muito grande. Não há duvida que poderíamos chegar, mas também poderíamos ter que acionar um resgate e abandonar o barco no meio do mar. O prejuízo de um resgate seria muito maior do que terminar a viagem em Solomon Islands.
Foi neste momento que constatei que os grandes amigos fazem a diferença, e que uma equipe de pessoas conscienciosas pode acender uma luz. Estava dormindo, mas no Brasil acontecia uma reunião da qual participavam o Dega e o Elton, coordenadores do projeto, o Dudu, diretor do filme e dono da produtora ST 2, o Doro, assessor de imprensa, e o Mark e o Aluisio, ambos da Matos Grey, agência que cuida da comunicação da viagem e da minha carreira. Dentro deste grupo de amigos, dois velejadores, sendo que o Mark havia passado dois anos em um veleiro com a família exatamente nesta região. Eles me ligaram no meio da madrugada e, pelo telefone, todos me deram apoio para qualquer que fosse a minha decisão, dizendo que estariam ao meu lado, mas sugeriram uma nova possibilidade para a viagem: parar o projeto agora, fazer uma revisão detalhada no barco e esperar até outubro, quando a meteorologia estiver mais adequada, os ventos mais calmos e tudo mais estável. Estamos no inverno e as frentes frias estão em plena atividade. Na semana passada houve ventos de até 170 quilômetros por hora na Nova Zelândia, e por três vezes as frentes chegaram à Nova Caledônia, coisa que não acontecia há muito tempo. Achei a idéia bem razoável pois, além de tudo, o Igor e eu estávamos muito imersos nos últimos acontecimentos e assim fica difícil tomar uma decisão. Acordei o Igor e contei-lhe sobre a nova idéia, à qual ele não reagiu bem, porque em setembro ele vai recomeçar seu último ano de Engenharia em Lyon, na França.
No outro dia, bem cedo, voltamos ao barco para iniciar a montagem já com os novos parafusos. A nossa falta de confiança em relação ao barco vinha de um fato: por duas vezes ele velejou muitas milhas sem um parafuso, trabalhando de maneira errada, sendo que na última vez velejou com a travessa frontal solta e os cascos fora de esquadro. Isso poderia ter comprometido a estrutura do barco. Algo pior poderia acontecer sem nenhum aviso. Pois bem, quando começamos a mexer nas travessas o Igor percebeu um início de trinca, quase imperceptível a olho nu, exatamente no lado oposto ao que quebrou quando chegávamos em Mangareva, no ano passado. Resumo da ópera: a travessa poderia quebrar mesmo se fossemos para Solomon Islands. A decisão estava tomada: vamos parar a viagem para recuperar a travessa, da mesma forma que fizemos na Polinésia Francesa, e daqui a dois meses voltaremos para Vanuatu. Ficamos muito felizes em descobrir a trinca, pois antecipamos uma quebra. Não que eu não queira velejar agora, mas no final pude ponderar as duas opiniões, o mal estar do Igor e meu, e a posição do pessoal no Brasil. Foi muito importante também receber um telefonema do Stefan, amigo de longa data e presidente da Red Bull. Ele nos deu apoio total qualquer que fosse nossa decisão, mas pediu que analisássemos todas as alternativas. Foi bom também receber o apoio de outro amigo, o Fabio Boucinhas, do Yahoo Brasil, que como velejador também entende perfeitamente o que estamos vivendo.
Sendo assim a Austrália continua viva dentro dos nossos corações, não vamos desistir, vamos fazer de tudo para chegar onde nos propusemos chegar. Uma viagem como esta mostra claramente como é difícil transitar por esta linha tênue que separa a responsabilidade da ousadia, a intuição do desejo. Vivenciamos mais uma vez a experiência de sermos humildes e reconhecermos os nossos limites, como um alpinista que abre mão de chegar ao cume para poder voltar vivo para casa. Felizmente ainda não esgotamos nossas possibilidades. Sinto-me aliviado e leve. Vamos voltar e dar tudo que temos para chegar à Austrália. Esta é uma promessa que faço para mim mesmo e para todos que estão torcendo por nós.
Quero deixar registrado aqui que em breve gostaria de gritar "Terra à vista! Austrália!", e dar um abraço no meu grande companheiro Igor.